Crônicas

Looping quotidiano

O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam:

— Data de nascimento?
— CPF…?
— CEP..?
— Telefone, com DDD:
— Sabe seu peso?

Inacreditável como um arsenal de números insiste em sintetizar quem somos. Sorriu, mentindo sobre o real valor de sua altura. Registro facial bem-sucedido, criptografado no sistema sob a forma de incontáveis outros dígitos. Catraca liberada. Mais um número: 853, surgiu no visor digital ao atravessar os braços esterilizados e refrigerados.

Vamos lá.
Um passo.
Outro.
Mais um (já são 3!)

Pessoas em quantidades consideráveis. Nenhum conhecido. Alguns olhares. A maioria perdida entre movimentos ensaiados e ritmos particulares que cada um compartilha consigo mesmo, sem fios, nos minimalistas fones de ouvido.

Detestava, mais do que qualquer outra coisa, o ambiente colorido, suarento e repleto de reflexos, equipamentos e câmeras das academias.

Essa é diferente, você vai ver!

Até agora, nada novo: a manifesta vontade de sair correndo por onde a haviam taxado 853, naquela manhã de janeiro de 2026. R$ 99,90 por 3 meses… Compreendia que não duraria tempo suficiente para descobrir o valor legítimo da mensalidade.

Aproximou-se de uma parede repleta de portinhas. Escolheu a 23. Escrutinou o ambiente na surdina ao deixar seus pertences ali. Não tinha cadeado — anotou mentalmente a necessidade de trazer um na segunda aparição, que faria, se fizesse. Alguns passos para a esquerda. Bebedouro à direita. Um QR code com a programação das aulas.

Retorna ao armário. Zíper da bolsa laranja. Tateia até sentir o celular. Alguém a esbarra.

O que as pessoas veem em ambientes assim?

Encosta a portinhola. Volta ao QR code. Analisa as possibilidades que a deixariam
distantes da esteira com vista para a TV de 60‘.

8h06, informa o canto superior direito do seu smartphone.
8h10, aula de alongamento.
É isso.

Procura a sala. Porta 5. Lá dentro, lâmpadas tubulares coloridas no forro pintado de preto.

8 mulheres. 2 homens.
Sorri cabisbaixa querendo sumir. Escolhe um colchonete no fundo da sala.
A professora sobe num pequeno palanque.
Sucessão de gestos copiados, respirações contadas no “1,2,3”
Suspensão de oxigênio.
“6,5,4,3,2…”.
E de novo.

Estalo de ossos. Músculos doloridos, pouco a pouco descontraem-se.
45 minutos depois, fim. Está de novo à deriva.

Recorre ao QR code. Próxima aula… zumba… não.
9h30, bike.

Gastar 25 minutos conhecendo a academia?
Fingir fazer algo importante no celular?
Beber água.
Fila no bebedouro. Trazer garrafinha.

O próximo a hidratar-se, curvando o pescoço e exercitando o abdômen involuntariamente, é um ex-professor da faculdade. Sente-se desconfortável. Abre uma rede social qualquer e finge curtir tudo o que aparece — finge ou curte mesmo, culpa da aflição.

Ele passa.
Ela suspira.
Um barulho ao longe. Ganha força. Volume.
Balança a cabeça.
Novamente o bip bip insistente.
Rotaciona o pescoço. Direita. Esquerda.

Fecha os olhos, tentando descobrir de onde vem tal balbúrdia incômoda. Inspira.
“1,2,3”
Abre os olhos.
O teto mostra números luminosos.

7:01.
Levanta o dorso. Pisca. Não entende.
Não passara de um sonho.
Desliga o alarme com a mão esquerda e volta a dormir.
Pelo menos não era real, essa história de academia…

De novo o alarme.
7:06.

Levanta-se atordoada. Banheiro. Lava o rosto. Escova os dentes. Os cabelos são um amontoado de nada com nada.

Cozinha: limão, água, pão e manteiga. Cafeteira: café.
Banheiro, novamente. Topper. Camisa de manga curta. Calças legging. Meias. Protetor solar facial. Ensaia um sorriso. Penteia os cabelos. Rabo de cavalo. Bolsa laranja. Tênis. Fecha a porta.

Elevador.andar. Pátio descoberto.
O calor voltara, sem dó, piedade ou qualquer advertência de brisas amistosas. Já desgastada do clima instável, como da própria prudência em largar o vício do sedentarismo, dirige-se, por 1ª vez a uma porta envidraçada de bordas pretas. Entra. Recepção. Cíntia tinha na ponta da língua todas as séries numéricas que a identificavam.

— Data de nascimento?
— CPF…?


Olha com uma sensação de estranha familiaridade para o seu reflexo, quadruplicado.
Um espelho está de frente para um outro. Atrás de si, um visor acende. Barulho
inquietante.
Um número pisca.

7:01

O alarme — em algum tempo, no mesmo lugar — se prepara para tocar outra vez.

Bia Mies

BIA MIES é carioca da Serra Fluminense, autointitula-se "do mundo" e reflete em sua escrita um olhar sensível sobre a vida do seu "entremeio": cada crônica torna-se uma interação entre o trivial e a reflexão poética, uma tapeçaria de influências e insights. Tece pontes entre arquitetura, urbanismo, artes visuais e cênicas, moda, leituras, cafés, viagens, família, amores, Zeca (seu fiel companheiro de quatro patas), amigos, Itália e "experiências dos usuários", área na qual atualmente se especializa. Cada percepção transforma-se em texto, numa busca exploratória de pensamentos e emoções, através de uma visão pessoal do cotidiano e do extraordinário. Celebra a beleza da imperfeição e convida o leitor a uma jornada introspectiva, onde cada palavra é cuidadosamente escolhida para ressoar e provocar. Como o sopro das vivências que se entrelaçam pelo seu caminho, Bia Mies homenageia quase duas décadas de exploração literária no Crônicas Cariocas.

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